quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Apresentação do Livro



Calma. A foto acima não é de nenhum psicopata.
            
Para quem ainda não me conhece, meu nome de batalha é Sidney. Sou paulistano, separado, tenho 55 anos atualmente, e trabalho como técnico de computadores.
            
Tirei essa foto quando recebi minha roupa para a radioterapia. Teria que ir ao hospital todos os dias. Então, por que não tentar uma vaga como micro-cirugião? Mandei até um currículo. Mas nem me chamaram para uma entrevista. Mesmo eu tendo deixado claro ter assistido à duas temporadas completas de Dr. House!
            
Eu não entendo esses departamentos de RH. Perdem muitos talentos por falta de atenção. Será que eles preferem alguém que assistiu à quatorze temporadas de The Grey's Anatomy? Que bobagem... Nem se compara a qualidade na formação dos maratonista profissionais de Dr. House.
            
Essa apresentação deveria ser um vídeo. Sabe como é, né? Dar uma modernizada na vida, usar novas tecnologias, etc e tal. Mas... Cara, eu sou um sujeito do século passado! E ainda mais, confuso, disperso. Também travo frente à câmeras. Sabe aquelas tribos indígenas, que Hollywood dizia existirem, que tinham medo que fotos roubassem suas almas? Então, elas não existem, mas eu existo. E alguém em Hollywood certamente se referia a mim.
            
Tenho, também, sérios problemas de linearidade ao pensar. Começo falando sobre algo e escorrego para outro assunto, discuto comigo e concluo o oposto do que afirmara segundos atrás. Enfim... isso num vídeo seria insano. Num texto, tenho como olhar para trás, e retomar o assunto.
            
O que, aliás, vamos fazer agora.
            
Nos meus tempos de criança, sempre ouvi dizer que ”todo homem deve plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro”. Nem sei se nessa ordem necessariamente. Cara, escrever um livro depois de ter filhos? Não daria nem pra escrever um bilhete, imagina um livro inteiro?
            
Mas retomando... nunca plantei uma árvore, não. Uns feijões no algodão, nos tempos de escola. Lembra disso né? Você também plantou, certamente. Então... isso não conta como árvore.
            
Livro? Hummm... também não. Alguns pequenos contos. E nem relevantes. Então... Falta número 2.
            
Mas tive filhos. Três. O que, pela lógica compensatória... tarefa cumprida. E ainda com uns pés de feijão de brinde!
            
Só que... Ah meninas (desculpem-me pela interrupção no raciocínio. Retomaremos assim que possível), você observaram que no século passado Homens plantavam árvores, Homens escreviam livros e Homens até tinham filhos?
            
Pois é. Mulheres eram seres secundários para a história cotidiana da humanidade. A coisa era feia lá atrás, viu? Sabemos que ainda não é o paraíso. Nossa, longe disso. O Brasil é o 5º país no ranking global da violência contra à mulher. Uma catástrofe. Mas muita coisa já mudou para melhor.
            
Então, quando você pensar em criticar feministas, sério, reconsidere. Não engula essa conversa mole que te passam, de atitudes extremas de uma ou outra, usada para despertar seu preconceito ou repulsa, ao invés da solidariedade.
            
Pense na profissão, por exemplo, de sua avó. Ou bisavó. Umas poucas tinham alguma profissão. Ou estudo. Mulheres eram donas de casa e pronto! E não que seja errado ser dona de casa. Mas...
            
A luta das feministas do século passado que conquistaram o direito de você escolher. Quer ser Advogada? Seja. Quer ser Dona de Casa? Seja. Quer depilar as axilas? Depile. Quer deixar seus pelos em paz? Deixe-os. Você escolhe. Você diz sim, diz não, diz talvez. Você tem esse direito. E não foi concedido. Foi conquistado. Por mulheres que lutaram e sofreram muito. Não as desmereça, porque te levam a isso com informações distorcidas.
            
Reflita! Em essência, a luta delas é a sua luta. Feminismo não é uma questão capilar, de ter ou não ter pelos seja lá onde for. Porque, no meu tempo, mulheres que se depilavam intimamente eram apenas as que faziam filmes pornôs. Era uma questão técnica, para uma filmagem mais limpa e clara da vagina. As mulheres “decentes” tinham pelos. Muitos pelos, encobrindo suas “vergonhas”.
            
Você vê? Não deixe que o modismo a afaste de quem luta para você. De quem luta ao seu lado.
            
Há exageros cometidos por algumas feministas? E você não acha que existam exageros cometidos por muitos machistas? Esqueça os exagerados. E foque no que é justo: direitos iguais sim. E liberdade de escolha sempre.
            
Bom, novamente, retomando o assunto, após a panfletagem feminista.
            
Por observação do cotidiano, imagino que, nos dias de hoje, as obrigações de TODO SER HUMANO (fica melhor assim, né meninas?) deva ser: toda pessoa tem que conhecer o grande amor de sua vida, sua alma gêmea, umas 8 vezes por ano; toda pessoa tem que fazer uma live no facebook ou brincar de vídeo influencer ao menos uma vez por mês; todo a pessoa deve mandar alguns nudes no Whatsapp semanalmente.
            
Well... não tô pegando nem gripe, quanto mais o grande amor da minha vida. O vídeo, eu até tentei. E vou tentar de novo. Mas por enquanto, só esse videotexto aqui mesmo. Rapaz, nas minhas condições físicas, nem vai dar pra usar a lógica compensatória. Onde eu vou arranjar três ereções por dia pra mandar tantos nudes assim? Alguém sabe onde vende Viagra baratinho? Mandem in box, tá?
            
Mas vamos ao prato principal. O livro foi concluído. Está publicado neste blog, em três formatos diferentes, para facilitar sua leitura.
            
Em e-pub, mas ser lido em celulares, tablets e até no kindle, da Amazon. Para celulares e tablets, você precisa baixar um app, na Google Play, um leitor de e-books. Existem diversos gratuitos. Sempre usei o Cool Reader. Bastante eficiente e simples. Único inconveniente é que ele não speak portuguese. Mas é bem intuitivo. E qualquer dúvida, me chamem no zap, mandem os print das telas e eu os oriento.
            
Em PDF, para microcomputadores. Basta ter o Adobe Reader instalado em seu micro. Se não tiver, pode baixar gratuitamente em www.adobe.com. Também oriento, se você precisar.
            
E finalmente, publicado no próprio blog, para quem não quiser maiores confusões. Basta clicar no link, aqui no blog mesmo, Leia o Livro no Blog. Bem simples.
            
Quanto ao livro: não é literatura. Faltam elementos para isso. É mais um relato de um momento da minha vida. Apesar do assunto, um câncer, não é um drama. Procurei manter a maior leveza possível. Aliás, nem foi escolha. Sou assim. Claro que há momentos mais tensos. Porém, na maior parte do tempo, é irônico, bem humorado. Sem que isso me torne um alienado ou desconectado de minha realidade. Creiam-me: impossível para qualquer um se desconectar de um câncer. Não dá. O câncer não deixa.
            
Por coerência, tenho que colocar uma opção de “remuneração pelo trabalho do autor”. O livro pode ser baixado gratuitamente. Não há travas ou solicitação de comprovantes de depósito. Não, nem pensem em me mandarem comprovantes. Não quero saber se alguém depositou ou não. Apenas, deixo aberta a possibilidade de que você pague pelo livro. Se quiser. Na prática, o livro é gratuito.
            
Então, ao final da página, deixarei o número da conta para o depósito. Se você quiser depositar R$ 1,00, R$ 2,00 ou R$ 5,00, tudo bem. Esse deve ser o preço de um e-book amador de um autor desconhecido. Se não quiser, também tudo bem. O que eu quero mesmo é que você leia o livro. Isso é o importante para mim.
            
Agora, apenas para esclarecermos: o depósito seria uma remuneração pelo meu trabalho de escritor. Por favor, não deposite com a intenção de me ajudar em meu tratamento. E não deposite valores maiores que os sugeridos.
            
Meu tratamento é feito no ICESP (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo). Um hospital referência mundial em qualidade, o maior e melhor da América Latina. Não tem tapete persa, nem luxos, porque é SUS. Porém é tão bom ou melhor, em termos de profissionais e equipamentos, quanto um Sírio Libanês ou Einstein. Aliás, com muitos profissionais em comum. Tenho uma cobertura multidisciplinar completa. Até a medicação que consumo me é dada, sem custo algum.
            
Para o dia a dia, conto com a ajuda de minhas irmãs e de minha família. Além da ajuda super importante de um cliente, que manteve um contrato que tínhamos, mesmo que eu não possa retribuir em serviços, com a qualidade que antes retribuía. O Rubens acabou se mostrando mais que um cliente. Quase um pai. Apesar de não ter idade para ser meu pai. A não ser que fosse muito danadinho, quando jovem. Se bem que, carinha de danadinho ele tem... Ops, caramba. Isso era para ser um elogio e gratidão. Rubens, sou muito grato mesmo. Mais que um cliente: um amigo. Como muitos outros se mostraram assim também.
            
Esclarecido isso... Nada de depositar um milhão de dólares em minha conta, certo?
            
Ãhn, pensando bem... Cara, quem sou eu para desencorajar a bondade em seu coração? Não quero levar para o túmulo esse kharma, não. Impedir que o ser humano desenvolva sua generosidade, que evolua como espírito, isso é um pecado imperdoável. Nas 5.784,5 religiões conhecidas. Se isso te fará feliz, fique à vontade tá? Só converta em reais. Minha conta é de Caderneta de Poupança e não aceita depósito em moeda estrangeira.
            
Mas falando sério: nada de depósitos para ajudar o tratamento ou dar uma força no dia a dia. Não é o caso. Se você fizer o depósito, é pelo livro. Leia. Se gostar e não der preguiça, deposite. Ou não. O importante, como foi dito, é que você leia o livro.
            
Por falar nisso: se você puder ou quiser me ajudar, se você tiver lido o livro e gostado, por favor, compartilhe o link do blog. Ou até o livro que você baixou. Quanto mais pessoas tiverem acesso, mais leituras.
            
Não sou pretensioso e nem acho que a leitura deste livro vá salvar alguém. Ou tornar sua vida melhor. Não é autoajuda. Não é um manual para a vida feliz. Mas é um relato honesto de alguém que passa por um problema complicadinho, pra dizer pouco. E isso, pode ampliar sim a percepção da pessoa, que também viva algo ruim neste momento. Não que ela transporá para a sua vida minhas atitudes. Mas ela perceberá que existem outras formas de encarar problemas. Inclusive, dentro dela mesma, existem diversas formas. Basta que ela permita que essas formas aflorem. Assim, quem sabe, ela poderá ter uma qualidade de vida melhor. Não por me descobrir. Mas por descobrir que existem bilhões de pessoas, com trilhões de problemas, com quatrilhões de soluções e forma de encará-los.
             
Bom, é isso ai. Espero que tenham gostado do vídeo imaginário. E que possam curtir o livro, um pouquinho.  Um grande abraço a todos vocês.


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Agradecimentos.


Uma parte de todo livro que sempre julguei perigosíssima: agradecimentos ou dedicatória.
Mesmo para quem tem uma memória prodigiosa – ah, eu já tive! E era um saco tê-la !!! Como é bom se esquecer de algumas coisas... - é inevitável que escape o nome de alguém. O que, no mínimo, é garantia de um reencontro constrangido e cheio de “dedos”.
Entretanto...
Com sinceridade, aos mais que clientes e amigos: Dra. Rita e Luiz Dardes, Bia e Rosângela, Rubens Barhum e Eliane Gaia, Paulo e Sílvia Bertoncini, Guina, Marcos Kissil, Dra. Ana Maria, Osmar Araújo (ainda me deve uma cerveja!), Osvaldo Arai, Makoto, Flávia, Fran, Cláudia e toda a turminha de Itu, Dra. Wanise, Dra. Mariela, Dr. Thiago, Dr. Rodrigo, Ciomara, José Carlos e Vera, Flora, a turma do prédio Manoel, Jaílson, Alberto, Nivaldo e Sebastião, ao Roberto, da Banca, e sua esposa, e mais outros tantos que – eu avisei! – inevitavelmente me escaparão à memória neste instante.
Aos familiares, Marli, Fátima, Gina e Marcelo - irmãos pra valer - minha mãe, minha tia Tereza - que mesmo com seus tantos problemas, ainda teve tempo para uma visita e para “trocar remedinhos e dicas comigo” - minha prima e primo, Elaine e Eduardo.
Aos meus três filhos, Marcos, Marli e Leila - meu vislumbre da imortalidade e eternidade possível aos homens -  Sem vocês, eu nem me levantaria da cadeira para enfrentar o tratamento, posto que não teria o menor sentido tal esforço. Tive minha vida. Nada me faltou e nada me falta agora. Nem preciso de mais do que já tive. E sou grato por tudo e que tive. Principalmente, por tê-los, vocês, meus filhos. Mas... nem pensar em largar vocês assim. Nossa história ainda não acabou. Ainda falta caminhar um pouco mais ao lado de vocês. Só um pouquinho mais, até que vocês percebam terem suas próprias pernas. E que são fortes como poucas.
Ao pessoal do ICESP, puxa, de que nem consegui guardar nome a nome - Nem da minha enfermeira favorita, da revisão da Radiologia. Imperdoável. Você é dez!!! - Porém, fazem parte da minha vida, do tempo a mais ganho por aqui, graças ao profissionalismo e dedicação de cada um por lá. Do sorriso da recepcionista, às palavras de encorajamento e aos tantos “bom dia, boa tarde” das ascensoristas, da paciência e precisão das enfermeiras, enfermeiros, médicos e médicas, ao aplicarem os tantos procedimentos necessários... O amparo por lá é excepcional e – incrível! - excepcionalmente humano. 
Quem dera, um dia, todos possam perceber como é importante a construção de um SUS universal e gratuito, para todos, com a qualidade do ICESP. Um caminho inverso do que esses malucos estão pretendendo agora.
Nada de convênios. Só o SUS pode consertar o dilema Saúde x Lucro.
Aos tantos outros que nem estão mais por aqui, mas que deixaram tanto e tanto, que mesmo após anos de ausência, a presença ainda é tão intensa: Pai, obrigado mesmo; você era meu contraponto perfeito. Separados, somos meio estabanados, atrapalhados. Caminhando juntos... Uau, que dupla infernal formamos em minha consciência.
Vô, cara, nem sei como falar... mas que grande sujeito você foi, mesmo quase sempre calado. Sua integridade, sua determinação e até sua resignação, quando necessária.
Tio Soares, Mané – ah, caras, como vocês eram problema e solução ao mesmo tempo! Imprescindíveis e com um carinho enorme em minhas lembranças.
Vó, Tia Maria... cada história de superação, quanta força em cada despertar, quanto amor dedicado à família. Cada um de nós tem um débito enorme com vocês. E a obrigação de pedir perdão um milhão de vezes a cada uma de vocês, sabendo o quanto isso será pouco e insignificante, perto de tudo que suportaram, resignadas. Como o mundo era cruel com as mulheres! E o quanto nos fazia cruéis com vocês também. Perdoem-me. Por favor. Uma última vez. Por não ter sido o tanto que deveria ter sido. Por não ter tido força suficiente para ser mais do que me era pedido ser à época.
Ao pessoal do facebook. Virtuais que nada! Apoio e incentivo generoso, vindo numa hora tão precisa. Vocês tem mesmo minha amizade e gratidão também.
Um agradecimento especial à você e ao destino. Você, que me ensinou o que é o amor. Todo o amor, o bom e o ruim do amor. Até o final, carregarei nossas lembranças. Apenas um lamento: puxa, que pena que não deu certo. Que pena que nos faltou um pouquinho mais de força e sorte. Para que caminhássemos juntos, enfrentássemos juntos, tudo o que ainda está por vir. E mesmo assim.... Caramba, fui tão feliz – e triste! - Não me arrependo de nenhum segundo sequer ao seu lado. Mesmo dos segundos ruins. Valeu cada momento. Cada suspiro. Por tesão ou exaustão. Mas sempre por amor.
Ah, sim. Imperdoável seria esquecê-los: Dostoievski, Thomas Mann, Sartre, Camus, Cervantes, Pessoa, Machado de Assis, e mais horas e horas de citações de autores e suas obras. Aos milhares de Cineastas, Atores e Atrizes, Músicos e artistas de todos os tipos, artes e estilos. Em mim, cada ruga, cada cabelo branco, cada cacoete, tem uma frase, um personagem, uma melodia e letra, sonhado por vocês. Minha turminha da pesada. Amo a todos vocês.
Aos Filósofos, atormentadores da Alma Humana, tipo um Nietsche e um Freud, aos Deuses em profusão ou ao Deus único; a todos vocês, um obrigado sincero, pelas tantas dores de cabeça que me deram. Quem seria eu, sem poder nomear minhas neuroses, afinal? Eu mesmo, certamente que não.
O que posso dizer a todos vocês?
Muito obrigado. Mesmo e com sinceridade. A todos vocês.
Nunca houve na Terra, homem que andasse tão bem acompanhado quanto eu. E isso, devo à sua existência e ao privilégio da sua companhia.
Termine como terminar, valeu mesmo.

Introdução.

“Entre a dor e o nada, eu escolho a dor”
Willian Faulkner em Palmeiras Selvagens



Este projeto nasceu de um mero acaso. E de algumas necessidades.
            
O acaso foi um câncer que suspeitei ter, no início de 2017, por uma série de sintomas. E a necessidade foi a de manter um conjunto de amigos informados, do básico, de como eu estava, se eu ainda “estava”.
            
Também, pela necessidade de pôr no papel o que acontecia. Pra me entender, pra compreender de fato e lidar com meus medos, anseios e perspectivas de meu possível futuro. No papel, sempre tudo fica mais claro. Ao menos, para mim. Compreendo melhor os fatos, após espremer a alma para que escreva.
            
Daí, para publicar pequenos textos no facebook – por lá, chamam de textão. Estranhos esses tempos... - onde a maioria destes amigos estavam reunidos, foi um passo.
            
Da primeira vez, uma sensação estranha. Era me expor demais. E, para tanto, eu não tinha coragem. Por isso, me pareceu que o texto foi truncado, com mais insinuações que informações. Quase que superficial.
            
Deixou-me a sensação de medo, em demasia, e a certeza de não estar sendo totalmente honesto; comigo, com a vida e com os amigos.
            
Porém, conforme o tratamento foi evoluindo, e novos problemas aparecendo, percebi que não haveria meio termo: ou eu escreveria o fato, real, sem subterfúgios, ou me omitiria por completo, abandonando as postagens e esse elo estabelecido com meus amigos.
            
Pela receptividade de algumas pessoas, que conhecia apenas pelas redes sociais, senti que o melhor caminho seria me abrir mais, me atrever mais. Elas estavam se valendo dos textos para resolverem ou, ao menos, encaminharem a resolução de seus problemas pessoais. E algo interessante: nenhuma era paciente de câncer ou familiar de um.
            
Problemas comuns ou, eventualmente, uma depressão, uma tristeza profunda, uma decepção, um momento mais intenso em suas vidas.
            
Por que então, não escrever mais?
            
Nessa mesma época, agosto de 2018, conversando com uma cliente e amiga, que me ajudou muito nesta fase difícil, veio a sugestão de ampliar estes textos. De escrever algo mais coeso, com mais informações e impressões pessoais. Até uma sugestão para o título: Contos Oncológicos. – Obrigado, Dra. Rita!
            
Na visão dela, de médica militante no combate ao câncer de mama, os textos poderiam contribuir, de certa forma, para que pessoas de fora da área - que não fossem médicos, pacientes ou familiares - tivessem acesso, mesmo que restrito à minha imaginação, ao universo dos pacientes com câncer.
            
Não era a porta de entrada que eu imaginava para minha literatura. Uma autobiografia, mesmo que camuflada por doses de romance. Sempre escrevi ficção. E, mesmo assim, nunca senti sequer a necessidade de publicar os textos que escrevia. Eram mais um exercício de compreensão do meu entorno e de mim mesmo. Eventualmente, um compartilhamento de pequeno porte, num blog pessoal.
            
Entretanto, dadas as circunstâncias, e pela possibilidade de um compartilhamento mais amplo e do “ganhar mútuo” - eu me entendo melhor e encontro forças para enfrentar minhas batalhas; e o “outro” percebe sentimentos e pensamentos em comum, acertando assim também suas forças para as suas próprias batalhas – me veio de novo a mesma questão: por que não?
            
Então, é Sim.
            
Vamos escrever. Vamos puxar pela lembrança e, onde a memória falhar, preencher as lacunas com a criatividade da ficção. Vamos nos mostrar ao mundo, sem a preocupação da preservação de autoimagem. Que se foda, né?
            
Aqui um porém: não estou completamente à vontade, com essa exposição. Minha intimidade, desta forma, escancarada. Peço aos amigos que entendam isso. Porque não vou discutir os textos (muito menos, os meus problemas) quando conversarmos. Para mim, serão mais que textos. Ainda não dá pra encarar essa sensação. Faltam-me velas para tanta iluminação.
            
Sei que é demais pedir separarem o personagem do autor, mas... vou pedir-lhes. Não se comovam com o Autor. Não sintam piedade pelo Autor. Não olhem para o Autor com os olhos de quem se debruça sobre o Personagem. Usem e abusem da empatia com este último, o Personagem. Mas se esqueçam saberem ser ele mesmo o Autor.
            
Começo hoje, num domingo, 2 de Setembro de 2018, a redigir este livro. Espero concluir a primeira parte, da suspeita de um câncer ao momento atual, em menos de dois meses. É mais ou menos o prazo para que chegue o momento da provável cirurgia.
             
Ah, sim. Fraquejo por vezes. Desanimo. Desejo o fim de tudo.  Ou não. E eu não sei o que me espera nessa nova esquina. Esta primeira parte da história está garantida. Pra frente... eu não sei.

Neste momento de espera, estou sem chão, sem bases reais para, sequer, imaginar quem serei, o que serei e o que será de mim. Porém, sei quem sou agora. E este “ser” é quem conduzira os leitores neste primeiro momento da história.


De alguma forma, espero contribuir com os eventuais leitores, sejam eles médicos, pacientes ou apenas curiosos. Que alguma linha, alguma frase, faça-os questionar um pensamento já consolidado. E lhes permita entrar num novo nível de compreensão sobre este e outros problemas que afligem a alma humana. Não por verem aqui um tratado, repleto de sabedoria, informações técnicas ou mesmo inovadoras - Não mesmo - Mas por, simplesmente, estarem lendo o relato de alguém que ousou ser honesto, consigo e com todos. E se expôs. Mesmo, e principalmente, muito a contragosto. Porém... se expôs.

Agradeço a quem se arriscar nesta leitura. Se quiserem falar comigo, tá fácil: jose.sidney@gmail.com. WhatsApp: 11 9.8590-7050.

Minha cirurgia deve acontecer em algum momento de Dezembro. Portanto, nesse período ficarei meio indisponível.

Sempre lembrando: eu não vou discutir a minha vida. Ou contar meus dramas, chorar nos seus ombros. Nem por e-mail, nem WhatsApp, nem pessoalmente.

Mas posso, sim, te ouvir e passar as informações técnicas, que eu tiver, sobre o problema. Se é isso o que você busca. Coisas básicas, como onde buscar atendimento, como buscar informações, como buscar Organizações que apoiem pacientes e familiares.

Pode até surgir uma amizade nesse contato. Não é a intenção.  Tanto quanto não é proibitivo. Seja bem-vindo, portanto. Como amigo ou eventual companheiro de um breve momento nesta viagem.

Um último porém: não sou psicólogo, nem profissional da área de saúde. Na verdade, sou apenas um técnico de computadores. Autônomo e atualmente, desempregado. Então, não tenho como ampará-lo. Nem emocionalmente, nem financeiramente. Por falta de capacitação e por falta de recursos mesmo. Posso ouvi-lo, prestar atenção no que você tem para me dizer. Mas não posso ir muito além disto. Não sei como. Até quero ajudar. Mas como? Eu não faço a menor ideia.

Bom... É isto. Vamos às canetadas. Que boas palavras possam brotar desta batalha contra o papel em branco.


Capítulo 1 – Tem dias que são ruins.


Eu tenho um Câncer. No reto, baixo, muito próximo à borda do ânus. O que pode ser muito ruim.


Descobri há pouco mais de 1 ano e meio, no início de 2017. Primeiro, como uma forte suspeita, que foi se consolidando com o passar dos dias, das semanas. A cada novo sintoma, a cada novo sinal indicativo. Finalmente, como um tapa na cara - Ei, acorda homem. Acabou o nosso tempo.

Ao final do mês de Dezembro de 2017, o desconforto era grande. E alguma dor também, para incomodar. O ato, banal, de evacuar, se tornava um tormento. Uma severa obstrução, dificultando a eliminação das fezes, sangramento, a sensação de que o intestino nunca esvaziava, havendo sempre a urgência de ter que ir outra vez ao banheiro. E a assinatura, nem tão sutil, do câncer, do tumor: nas fezes, havia um sulco profundo, por toda a sua extensão, deixando claro ter algo em seu caminho, a lhes fazer tal relevo.

O interessante, nesse momento, era apenas quando alguém da família perguntava, distraidamente – Mas onde dói?

Nunca precisei mais que um sorriso irônico, como se perguntasse “você quer mesmo que eu diga?”, para que a pessoa exclamasse um “ah tá!” e até ruborizasse, como minha filha Marli, em certa ocasião.

Convenhamos: haviam lugares mais dignos e nobres, para se ter um câncer. Ou qualquer outra doença. Mais letais talvez, o que seria ruim. Mas, indubitavelmente, mais fáceis de se lidar, socialmente falando.

Resignado com o possível diagnóstico e situação vexatória, consegui uma consulta na Unidade Básica de Saúde (UBS) de meu bairro. Em 2 de Fevereiro de 2018. Nem estava tão distante e me deixava até feliz, que não fosse antes. Eu queria aquele mês e tanto de distância da constatação de fato.

O ser humano é estranho mesmo. Ou eu sou. Se fosse apostar em uma das duas afirmações, jogaria o dinheiro, que não tenho, em uma terceira: todos somos esquisitos. Só variamos no tipo e intensidade de nossas esquisitices.

Ao mesmo tempo em que eu percebia a urgência para o atendimento, sabendo que cada dia que passava era, na verdade, um dia a menos na possibilidade de cura, eu percebia também que assim que esta guerra fosse “formalmente” declarada, acabaria minha ilusão de imortalidade. Acabaria minha “inocência”. Hoje, eu tinha apenas alguma dor e incômodo. Após o diagnóstico, eu seria jogado no meio de uma batalha, para a qual não tinha o mínimo preparo.

Temia que seria o fim do Sidney que eu conhecia. Me questionava mesmo se eu manteria minha sanidade. Será que eu me manteria em pé, ao ouvir a notícia livre do “talvez”?

Mas quem era o Sidney que eu conhecia? Ou o Eu de fato? Ou o Eu que todos conheciam? Existiria mesmo um “ser” definido, único, com poder de respostas precisas, para enfrentar uma situação de risco real de morte? Ou, pior ainda, para minha concepção de “vida e morte”?

Eu não tinha essa certeza. Me assustava um pouco a perspectiva de apenas sofrer. Em vão. Por nada. Que já fosse tarde.

Eu protelara demais. Eu me esquivara do combate o quanto pudera. Poderia até racionalizar uma centena de motivos. Alguns “bem bons” e válidos. Mas o fato mesmo era que eu pisara feio na bola.

Algumas coisas, não cabem em um displicente “depois eu vejo”. Mesmo assim, eu tinha que crer.

Capítulo 2 – Qual Eu? Que Eu? Quem, em mim?

Meu nome é José Sidney Pereira. Boa parte dos amigos, me tratam como Sidney. Outros, como José. Tem um senhor, meio maluquinho, por tanto beber, que me chama de Carlão. Um outro, que anda sumido – temo pelo pior, pobre Marivaldo – me chamava de Paulinho. Apesar de “corrigi-los”, por algumas vezes, até perceber a inutilidade do ato. Isso me fez concluir que a cachaça, com o passar do tempo, faz mal mesmo. 

Outros tantos então, por vezes, me chamam de outras tantas coisas. Mas é pura intriga da oposição. Minha mãe sempre foi uma senhora honesta, respeitadora dos bons costumes.

Enfim, não me pesa o nome. Sidney, José, Zé, Paulinho, Carlão, Barba, Magrão, Tio – Vô não, porra! Ai já é demais, moleque! - Muda o título na capa, porém o conteúdo é o mesmo.

Nasci em junho de 1963, na cidade de São Paulo, filho de um imigrante português, José também - que veio para o Brasil aos 17 anos, fugindo da segunda guerra e das insanidades colonialistas de Salazar -  e de uma mãe, Ilda, filha de imigrantes portugueses.

Classe média baixa, com algum valor à cultura e literatura, por parte de pai. Nem tínhamos o mesmo gosto literário – ele, Jorge Amado, eu Dostoievsky, lá pelos 11 anos - mas a sua influência sobre mim, ao vê-lo sempre lendo, ou de ver seus muitos livros nas prateleiras da estante, foi inegável.

Eu, um homem do século passado, sem maiores preocupações com saúde e cuidados. Levávamos a vida no tranco. Sempre suportando. Nada nos tirava a certeza de que “aguentávamos”. Fosse físico ou emocional, era para ser superado, sem maiores frescuras.

Não cursei uma faculdade. Gostaria de ter feito História. Não sei se gostaria de ser professor (nááááão. Apanham muito. Da PM, dos alunos e até dos pais de alunos). Mas não era o momento financeiro mais adequado. Trabalhava com meu pai. Ele estava investindo na construção de uma sede própria para sua empresa, uma pequena gráfica – achou que fosse uma padaria, né? Meu pai era um português diferenciado, abrasileirado, sem muito respeito por tais tradições. ;p

Tempos de escassez. E minha irmã já cursava uma faculdade particular. Difícil pensar em dinheiro para tanto.  Para dois, ao mesmo tempo.

Hoje, sou técnico de computador, formação como autodidata. Autônomo e sem recolhimento de INSS. Enfim, vivo de bico, totalmente refém das circunstâncias, do próximo serviço surgir antes da próxima despesa.

E nem por ignorância. Mas por uma espécie de “teimosia aventureira” – coisa de um velhinho anarquista, quase convicto - por querer provar a si mesmo que o mundo não precisava ser o que era. Que existiam outras possibilidades.

O que, de fato, prova-se um erro grosseiro. E irresponsável. É fácil ser alternativo quando, no apuro, surge alguém para pagar a conta. Meu pai cansou de insinuar, de modo lusitano – dizia na lata mesmo! - isso. E eu admito que deveria ter-lhe ouvido com maior atenção. Neste quesito, pai – sim, pai, em outras coisas o senhor também pisava na bola pra caramba. Nem vem tumultuar minha narrativa com esse superego introjetado!

Nunca fui afeito ao dinheiro ou ao acúmulo de bens. Claro que quando tive filhos e os compromissos se avolumaram, até que me arrependi desta opção. Mas nem tanto. Teimosia é meu nome do meio. Displicência, o sobrenome. Ou eram.

Correndo de um lado para o outro, sempre atrasado, conseguia dar o básico à eles. E me satisfazia com o básico para mim. Ou até menos. Além de ficar feliz por dar-lhes estrutura emocional e crítica, em vez de bens de consumo. Se tivesse comida na mesa – cigarros e cerveja para mim, guloseimas para meus filhos – bons amigos, boas histórias e gargalhadas, a vida estava perfeita - Por que as pessoas insistiam em terem mais? Ou quererem mais? – eu sempre me perguntava, sem me preocupar, verdadeiramente, em ouvir uma resposta honesta.

Sei que é estranho. Mas era importante, para mim, que eles percebessem não ser insanidade ter apenas um par de sapatos. Ou meia dúzia de camisas e calças. Era, ao contrário, sanidade. Era “ser feliz” por ser. E não por ter.

Eu não precisava de mais do que aquilo. Eu não precisava de relógios, de celulares caros, de gadget eletrônicos, notebooks novos, de um automóvel, de roupas em abundância, de viagens fabulosas nas férias. Eu não precisava consumir em demasia para Ser.

Da adolescência até uns 25 anos - mais ou menos, porque minha memória nem chega a tanto – eu tinha o hábito de usar apenas camisetas de malha, brancas, manga curta – tipo Hering – e calças jeans, cor índigo. Quase um uniforme.

No que haviam variações, apenas em eventuais blusas. E ai tinha uma especial: um blusa de tricô, caseiro, feito por minha irmã Marli, quando eu tinha 17 anos. Vermelha, claro.

Sim. Você, que me conhece pessoalmente, vê essa blusa ainda. Uma peça de roupa com 38 anos de uso. É a blusa que mais visto. E vocês não imaginam como é reconfortante tê-la em minha vida. Ela sabe mais de mim do que eu mesmo. Ela sabe o quanto eu já fui feliz. E triste. E das bobagens e acertos. Até dos porres, a danada sabe. Nestes tempos de delação, ufa... ainda bem que ela não fala com estranhos.

E eu Era e Feliz. Mesmo hoje, sabendo que, nem tanto ao mar nem tanto a terra – eufemismo barato para concluir que Eu Estava Errado – naquela altura da vida, era a minha percepção de vida sensata.

Feliz, sem o estereótipo de “alegre e alienado”. Feliz, com aquela felicidade generosa, que se permitia até a tristeza, até a frustração, até uma certa melancolia, que supunha vir do nostálgico espírito lusitano, afeito ao um tipo drama muito peculiar. Um Épico sem o glamour dos Épicos. Sem a ilusão do heroísmo anglo-saxão.

Felicidade que se sabia real, sem significar contentamento eterno e perpétuo, satisfação plena a todo instante ou mesmo um banal “we can”. Muitas vezes, “we não can nada, nada”.  “We nem can, nem descan”.

Uma mão invisível, que não era a do Mercado, nos conduzia, nos convocava a andar por paragens que nunca supusemos existirem ou, tanto pior, nunca ousáramos sequer imaginar carimbar nossos pés em sua areia.

Mas eu era feliz. Com poucas dúvidas sobre isso. Porque não precisava estar contentado e justificado o tempo todo. Fazia o que tinha que fazer, para sobreviver. Limpava a sujeira feita e seguia em frente. Sem maiores traumas. E nem material para reflexões mais profundas. Algo mais raso mesmo: perceber a necessidade, fazer, concluir, seguir em frente. Simples. Quase caboclo. Porém, sem a pretensão da colheita.

Ah, importante ressaltar, após usar a expressão “fazíamos o que tinha que ser feito”: esta não é a biografia do, mundialmente famoso, gangster e mafioso ítalo-americano Don Giuseppe Pereirone. Este “fazer o que tinha que ser feito”, nunca incluiu matar, roubar, traficar, corromper, intimidar, coagir, ameaçar, torturar, dar sumiço, comprar a base governista, patrocinar cantores de ópera ou arrocha, falsificar azeite, candidatos e whiskies com a mesma cara de pau...  E outras coisas típicas desse outro tipo de pessoa, que também se justifica, dizendo “fazer o que tem que ser feito”.

Eram coisas mais banais, mais bobas, tá? Tipo, meter as mãos e os pés na merda, para limpar uma fossa asséptica, matar ratos - e seus filhotinhos pelados - a pauladas, para conter uma infestação em nossa casa na Vila Madalena - na época, uma Vila Madalena com cara, jeito, hábitos e custos de periferia – Subir no telhado, uns 20 metros de desnível para a casa do vizinho, se cagando de medo, para trocar umas telhas quebradas e cicatrizar uma goteira no meio do quarto.

Essas coisas. Desagradáveis sim. Muito. Mas não tanto quanto ocultar um cadáver. Ou provar um whisky batizado.

Enfim: sou apenas um técnico de computadores. E descendente de imigrantes portugueses. Capisce, viso pallido?

Por favor; por um mundo com menos influência de Hollywood na compreensão dos fatos.

Capítulo 3 – Oi. Muito prazer. Eu sou seu tumor.

Logo na segunda semana de Janeiro, me arrependi duramente de não ter buscado atendimento antes.

Numa das visitas ao banheiro, uma dor aguda, à princípio. E crônica, após alguns minutos. De intensidade de moderada à severa. Impossível de se higienizar com papel higiênico. E muito sangue no vaso sanitário.

Corri para debaixo do chuveiro, para lavar o local, com o chuveirinho. Nada agradável o contato com a água morna. Beirava o insuportável.

Havia algo de muito errado. Ao tato, algo que saia para fora do ânus.

Em tempos de selfies e nudes à granel, por que não? - Cliquei!

Não havia dúvida. Um tumor, recoberto de sangue e pus, uns 3 centímetros, obstruindo a abertura anal. O motivo da dor intensa, ao fricciona-lo contra o papel higiênico – E agora? Como isso volta para dentro?

De cócoras, olhando apavorado para a foto, os segundos passando rápido e eu buscando alternativas, possibilidades. Decidindo entre um grito de socorro histérico, um desmaio patético, uma oração pro santo de devoção ou a difícil retomada do controle emocional.

Para algumas coisas, costumo adquirir uma certa frieza que, depois, até me causa preocupação – Será que sou meio psicopata? – costumo me perguntar, antes de “fazer o que tem que ser feito” – again - sem questionamentos ou repulsas.

Posicionei o dedo indicador sobre o tumor e o conduzi para dentro, vagarosamente, torcendo muito para que ele não explodisse com a manobra.

Uau... Fiquei mais uns 5 minutos naquela posição, tentando entender em que estágio da doença eu entrara agora. E em como lidaria com isso, na sucessão dos dias.

- Essa porra vai romper e eu vou ter uma hemorragia?

Balancei a cabeça, terminei meu banho, lavando bem a região e as mãos. Sai do banheiro, sem falar nada. Recorri à uma dipirona, para aliviar a dor mais intensa. Mas, sem efeito algum. Aquilo doeu muito por 3 horas seguidas. Não sei se até a dipirona fazer algum efeito ou pelo fim natural do ciclo da dor.

E aqui, cabe uma observação: o tempo não para, o mundo não para, as pessoas que precisam de você, profissionalmente ou emocionalmente, continuam precisando e te solicitando alguma atenção; a namorada de um difícil relacionamento, os filhos adolescentes, os clientes, os amigos e a família.

O mundo e o tempo, além de todas as pessoas que existem na face da terra, não vislumbram seu tumor como o sol nosso de cada dia. O câncer é seu. Apenas seu. Ainda mais, se você não comunicou ao mundo e comprovou a existência deste tumor.

Se você pretende transformá-lo em toda a sua vida, se você pretende resumir sua existência, entre o acordar e o dormir, num culto à uma doença... Cara, prevejo problemas pra você.

Assim eu percebia a urgência da situação. E toda a sua dualidade. Que eu precisava de ajuda médica, rapidamente, não tinha dúvida. Não cabia em minha cabeça repetir, 3 ou 4 vezes ao dia, aquele ritual de reinserção do tumor no reto. Não cria isso ser possível, sem que me custasse a minha estabilidade emocional. Ou sem que acontecesse algo pior, fisicamente. Mas também era fato, indiscutível, que tinha minha vida pregressa, pedindo soluções e ações cotidianas ou extraordinárias, em alguns casos. E tinha um mundo acontecendo. E que eu fazia parte dele. E me importava com ele. Com as pessoas que viviam nele.

A vida não faria uma pausa, para que eu tivesse “peninha” de mim. Ou refletisse sobre a morte, suas implicações filosóficas, metafísicas ou mundanas. Se essa fosse minha opção, minha escolha de como reagir à esta situação, que eu desse um jeito de arranjar um tempo extra para essa frescura. Que eu me propusesse a ter um dia com 30 horas, como o Unibanco – que quebrou, viu? – Porque boa parte do meu dia, eu teria que usar para viver o cotidiano. E lidar, de forma pragmática, com a doença. Sempre que ela solicitasse minha atenção. Da mesma forma que lido com a vida.

Capítulo 4 – Ignorância jamais é benção. É tormento. Mas informação sem ação, também o é.


Consegui tocar a vida, com alguma normalidade, até a data na consulta na UBS.
            
Mas estava difícil trabalhar. A dor era intensa, crônica. Nunca passava por completo. Quando eu saía à rua, andava meio encurvado, com dificuldade em caminhar. E na primeira chance, como num ponto de ônibus, ficava acocorado. Em pé, uma ardência exagerada e uma dor latejante, me torturava.
            
Como também o intestino era instável, passando da obstrução para a diarreia, sem prévio aviso, não me dando muita confiança para ficar longos períodos fora de casa.
            
Na parte emocional, a superação de sempre. O terror de inserir o tumor no reto, passara. Era algo banal, agora. Tinha que ser feito. Eu fazia. Não me questionava ou me atormentava com isso. Sem lamentações, fazia o que tinha que ser feito – again, again.
            
Enquanto aguardava o dia da consulta, buscava informações sobre o que eu tinha, no Google. Com algum cuidado, claro. Nunca vi um médico ou profissional de saúde formado pelo Google. Mas cansei de esbarrar em hipocondríacos, paranoicos e desesperados de todo tipo, que cursaram a ferramenta de busca de cabo à rabo, com direito à PhD.
            
Li muito sobre câncer de cólon. Fui percebendo que deveria focar minhas pesquisas em câncer de reto, pelo pedaço de tumor que era projetado para fora, quando eu tentava evacuar.
            
E ai vinham as maluquices e pirações. A construção do mito “Câncer”. Do sofrimento, da mortalidade. Se a ignorância me angustia, me tira a paz, a informação avulsa, sem que eu tenha capacidade para validá-la, me alucina duplamente.
            
Li casos clínicos. Estudos para médicos. Sabia de cor o estadiamento da doença, as porcentagens de sobrevida – pacientes que vivem cinco anos ou mais, sem o retorno do câncer, após o tratamento completo - os tipos de procedimentos cirúrgicos, as sequelas e período de recuperação em cada um dos casos. Até as taxas de mortalidade e as circunstâncias, durante o tratamento, cirurgia e recuperação. Mas...
            
E sobre o meu caso, especificamente?
            
Construir toda essa história de possível agonia e morte, baseado em que? Me desesperar, acabrunhar-me porque ouvi o galo cantar, mas nem sabia onde e nem o porquê? Não mesmo. Viveria minha vida, dentro dos limites que fossem surgindo. Até ter um diagnóstico feito por profissionais da área. Se tivesse que me desesperar, que fosse na hora certa, por um motivo real e indiscutível.
            
Em casa, tivera uma primeira conversa com os filhos. Gosto de jogar limpo. Até por trauma, em receber notícias de forma abrupta – Três horas da manhã, me chacoalhar e ... “Sidney, acorda, o vô morreu” talvez não fosse a melhor escolha, né pai? Mas talvez fosse a única, que lhe restou, eu sei. Nunca te perguntei, mas tenho quase certeza que, pouco antes de você me acordar, a Vó Virgínia o acordou. “Zezinho, Zezinho, acorda. O Francisco tá morto. E, muito possivelmente, quem acordou a Vó foi o acaso, que a fez falar com o marido e perceber que ele não mais vivia...
            
Enfim, não existem notícias abruptas. A vida, o fim da vida - e todas as suas circunstâncias - é que são abruptas. A nós, cabe o susto. O choque. E o nosso quinhão de drama. Então, te entendo pai. E te perdoo pelo vacilo. Mas que isso não se repita. Até porque você vier me dar alguma notícia nos dias de hoje... Para com isso! Eu hein pai. Por mais que você seja da família, Deus me livre, credo, te esconjuro. Alma penada é alma penada. E isso nem acontece nas boas família. Nem quero prosa sobre esses trens, não. Nunca tive a menor vocação para a mediunidade. Amém.
            
Mesmo assim ... Julguei melhor dar a notícia sem sustos.
            
Nada dramático. Apenas o básico, dizendo que era possível eu ter um câncer no intestino, que os sintomas apontavam para isso. E que eu não sabia de todas as implicações disso. Mas, com certeza, a vida mudaria. No mínimo, pelo período de tratamento, em que eu ficaria afastado do trabalho. Também disse que estava bem, por enquanto. Que a dor, dava pra conviver. E que não cabia desespero ainda. Porque eu não estava desesperado. E era eu o “doente”. Quando eu me desesperasse, então... – Aí vocês terão autorização para se desesperarem também. Mas sem exageros. Enquanto não, firmes ai. Vou precisar da ajuda de vocês.
            
Pra minha irmã Marli, que mora na mesma casa, e meu irmão Marcelo, também falei nesses termos. Preservei minha mãe e o resto da família. Sem um diagnóstico definitivo, não teria sentido espalhar a notícia mais que ao entorno próximo, que me viam no dia a dia, quer queiram ou não, com dor e correrias ao banheiro.
            
O dia 2 de Fevereiro chegou e na consulta com a Dra. Ana Maria, da UBS, as broncas previsíveis, para um relaxado como eu – Você se alimenta mal, não come legumes e verduras, fuma, não tem horários definidos, bebe pouca água – e uma discussão sobre o que poderia ser aquele “ser estranho” que me cumprimentava todas as vezes que eu evacuava, ou tentava. Câncer ou hemorroidas?
            
Nem nos aprofundamos no assunto. No exame de toque retal, ela foi clara o suficiente, para quem estava atento, em busca de qualquer migalha de informação – Não me parece hemorroida, não. Vou pedir uma série de exames para sabermos melhor.
            
Para bom entendedor, meia palavra basta, né? Se não era hemorroida...
            
Ah, sim. Para os curiosos de plantão: não, os dedos da Dra. Ana Maria não eram monstruosos de tão grandes. Nem sei o tamanho deles, por não prestar atenção e ser detalhe insignificante nestas circunstâncias.
            
Não. Toque retal não vicia e você, com uma suspeita de câncer, ou qualquer outra doença, não está minimamente preocupado, com a possibilidade desse vício. Se estiver, sugiro a solicitação de encaminhamento para o atendimento psicológico. Dizem que eles curam até machos inveterados por lá, que veem um complô gayzista em todo o canto, pronto para seviciar os doentes incautos e torná-los soldados do exército dos viciados em toque retal, destruindo as virtudes da família cristã.
            
Falando sério aos homens com mais de 40: Deixa de bobagem cara! Não perca tempo com estúpidos preconceitos ou vergonha. Vá fazer seu exames de próstata!
            
Da série de exames, a maioria era de rotina, para quem não era displicente com sua própria saúde. O que não era uma coisa ruim. Porque eu era displicente com a minha.  E há muito não fazia exame algum.
            
Eu tinha feito algo parecido aos 20 anos de idade. E nunca mais. Como disse, sou um homem do século passado. Sem revisões, no aspecto da saúde. Aqueles caras que nem o tipo sanguíneo sabem.
            
Um hemograma seria bem-vindo. A segunda vez que teria uma veia perfurada, em 54 anos e 8 meses de vida. Uma marca e tanto, não? Marca merecedora do título de Vacilão do Século.
            
Além de exames de fezes e urina normais, um PSA para a próstata e um de sangue oculto nas fezes, que faria a investigação de minha suspeita: câncer de cólon ou reto.
             
Enfim, pela primeira vez, senti que as coisas estavam em movimento. Que eu me aproximava de um diagnóstico e tratamento. Mesmo sabendo que a caminhada pelo SUS era tortuosa e demorada. Tinha começado. E era hora de exercitar minha paciência. Com esperança.
            
Porém, parece que meu tumor discordava dessa história de paciência, esperança e outras coisas que utilizamos para manter a sanidade.
            
Dois dias após a consulta, entrei numa séria crise de obstrução intestinal, não sabendo como lidar com isso eficientemente.
            
Laxantes? Todos contraindicados na bula, à pessoas com sangramento e, principalmente, obstruções intestinais.
            
A dor? Uau... Cinco ou seis vezes ao dia, correndo ao banheiro e a única coisa que saia por meu ânus era o tumor. Cada vez mais inchado, sangrando. E gritando a pleno pulmão. Que fôlego ele tinha. E que dor eu sentia.
            
Um amigo de meu irmão, Dr. Rodrigo, sugeriu eu correr, de forma urgente mesmo, ao Pronto Socorro do Hospital das Clínicas. Que isso poderia ser um prolapso retal e era perigosíssimo, implicando em severo risco de morte, o que abriria as portas do pronto socorro para mim, já que eles atendiam apenas casos que envolvessem risco de morte. Era um pronto socorro de referência. E todo atendimento cotidiano, menos grave deveria ser encaminhado para outros hospitais do SUS ou UPAs (Unidades de Pronto Atendimento).
            
Planejei ir na quarta-feira, dia 7, se a obstrução ou a dor não fossem superadas. Entraria no quinto dia a crise. Me aguentaria mais um dia. Protelaria.
            
Medo? Receio? Sim, um pouco de tudo, com certeza. Ao mesmo tempo que sabia não ser o certo, adiava o quanto podia esse enfrentamento. Eu precisava assimilar a dor física e a descompensação emocional. Sentir que alguma coisa eu controlava. Nem que fosse a minha própria resistência e teimosia.
            
Porém, para minha sorte e azar, tive uma forte diarreia. Algo que nunca passei na vida. E daquelas coisas que bagunçam a cabeça. Não deu tempo de nada. Simplesmente aconteceu. Por 54 anos, condicionado a controlar a evacuação – e fazer no peniquinho - e agora isso? Fazer cocô nas calças? Que merda, literalmente...
            
A sensação foi péssima. Me senti a pior pessoa do mundo, na hora - Como assim, não me controlo mais?
            
O medo que isso viesse a ser uma nova rotina a se lidar... Pode parecer estupidez, ignorância. Mas para quem se achava algo perto de um Superman, essas novidades eram socos bem dados na fuça. Eram evidências de que eu era nadinha, perto dessa doença. E que eu ainda poderia descer muito mais, ser muito menor, se as coisas continuassem a evoluir desta forma.
            
Claro que não fui ao médico naquele dia. E nem na quinta ou sexta-feira. Por insegurança, quanto a diarreia sem controle. E, principalmente, porque após dois meses de sofrimento, eu tinha um dia bom. Sem dor, sem cólicas abdominais, sem dificuldade para evacuar. A vergonha pelo descontrole intestinal, além de me colocar no meu devido lugar como ser humano, me trouxera um alivio inesperado no sofrimento físico.
            
Fosse qual o motivo eu escolhesse para justificar-me, ante os insistentes apelos, dos familiares, para que eu fosse às Clinicas, me eram mais que suficientes para me recursar. E eu nem argumentaria muito. Faria do meu jeito. E pronto.
            
Até entendia a todos. E sabia que eles estavam certos, no contexto geral. Mas aquele momento de trégua, eu não queria perdê-lo. Eu não poderia perdê-lo. Depois, eu veria. E se ficasse pior, tudo bem. Eu começava a perceber que, de fato, eu aguentava muito. Física e emocionalmente. Sempre após o susto, lá estava eu, pronto para enfrentar a nova realidade. E eu estava disposto a correr esse risco. A pagar o preço. Por uns dias de paz.
            
Finalmente, fui no sábado de carnaval. Uma foto no celular, do tumor. Recente. Por sorte, recoberto de sangue e muco. E essa foto abriu as portas do pronto socorro das Clínicas para mim. Um feito e tanto.
            
Só no carnaval mesmo, a foto de um... ânus tem tanto poder.